



Eu raramente gosto de uma tradução nacional, mas se Two Lovers já fazia um sentido diferente para o novo filme de James Gray (do ótimo Os Donos da Noite), Amantes é ainda mais abrangente. Amantes não se trata do sentido de homem e mulher que se amam, mas de seres humanos que necessitam de amor, muitas vezes obrigados a se conformar com um amor que não vem por inteiro, ou a se doar por alguém já despedaçado pela falta de afeto na busca de um pouco do que queria.
A história é basicamente sobre Leonard (Joaquin Phoenix). Desiludido pelo rompimento brusco de seu noivado, mesmo dois anos depois, ele não consegue seguir em frente e preocupa seus pais com um quadro de sintomas de depressão, como tendências suicidas. É quando entram Sandra (Vinessa Shaw) e Michelle (Gwyneth Paltrow). Sandra é filha dos novos sócios da família de Leonard e surge como uma promessa, aos olhos dos pais, para que o filho saia do conflito em que se encontra. Michelle é a nova vizinha do rapaz e sofre com um relacionamento incompleto com um homem casado e pai de família. O encontro dos três e como cada um deles se relaciona torna Amantes um filme indispensável.
O que mais impressiona em Amantes é a sutileza que se estabelece no primeiro e segundo ato. É um roteiro até surpreendente, tendo em vista a carreira curta e mal sucedida de Ric Menello. Só pela forma como foi capaz de moldar a personalidade de Leonard, Menello já merece crédito. O protagonista é instigante, desafiador e de fácil identificação. É possível compreender as excentricidades de Leonard e também é interessante perceber como cada uma das personagens consegue se adequar a ele.
Em complemento desses atos inspirados, Gray está mais maleável com a câmera e a faz fluir pelos cenários, possibilitando uma absorção maior de ideia, até mesmo sobre os personagens (como no caso do quarto de Leonard, da sala de estar também).
Mas o terceiro ato não consegue sustentar de forma plena tudo o que foi muito bem montado no decorrer do longa, recuperando-se apenas nos minutos finais com um desfecho interessante para o início da trama.
Amantes é o trabalho mais recente de Joaquin Phoenix (que “abandonou” a carreira de ator para ser cantor) e, como em vários dos seus trabalhos, destaca-se por saber conduzir de maneira tão bem seus personagens. Leonard exigia certa fragilidade disfarçada e Phonix entende isso com tanta perfeição que fica nítido em suas expressões a insegurança do personagem. Shaw domina as cenas que aparece, tornando-se um contraponto bem mais agradável que Paltrow nas cenas com Phoenix. Não que Paltrow esteja ruim, mas é como se a Paltrow de sempre estivesse lá.
Sensível e sutil em suas emoções quase por completo, Amantes é um filme sobre a busca do amor pleno e as dificuldades de alcançá-lo. Repare na atração que Leonard tem por pessoas abaladas, é como se ele tentasse completar seu vazio preenchendo o dos outros. E é nesse ciclo de pessoas destruídas pela falta de amor (ou da plenitude dele) que Gray se beneficia de forma admirável.


12 Comentários aqui!
setembro 21st, 2009 @12:15 pm
Um dos filmes que mais quero ver mas que ainda não chegou por aqui.
setembro 21st, 2009 @2:40 pm
Adoro James Gray e Joaquin Phoenix e esse é um filme que quero muito conferir!!!
setembro 21st, 2009 @3:17 pm
Interessante. Eu também sempre reclamo das traduções dos filmes. E nesse, em especial, acho que o genérico “Amantes” tirou parte do subtexto de “Two Lovers”.
Na minha leitura, o filme, mais do que sobre o amor, é sobre opostos. Por isso o personagem principal, de Joaquim Phoenix, descrito no início como bipolar, acaba envolvendo-se com duas pessoas tão distintas: uma loira, popular, extrovertida e interessante, representando o novo, e outra morena, calada, tediosa, caseira, o conhecido. As “duas amantes” do título, os dois lados da personalidade de Leonard.
Bem, essa foi a análise que eu fiz do filme…
setembro 21st, 2009 @3:54 pm
- Bruno e Kamila: Não percam a oportunidade!
- SB: Sua interpretação é interessante também, mas essa coisa da bipolaridade ficou pra mim mais como marca que o roteirista quis evidenciar do fim de um relacionamento que, claramente, era o amor ideal do Leonard. Foi exatamente daí que ele começou a se ligar a pessoas magoadas e nisso tanto a Michelle quanto a Sandra eram iguais. Acho que ele se apaixonava pela possibilidade de resgatar uma pessoa de algo que ele já havia vivenciado. Gostei de Amantes por essa variedade de interpretações. ^^
setembro 21st, 2009 @4:40 pm
Não sou um fã de “Os Donos da Noite”. Admiro muito a direção de Gray e a atuação de Phoenix, mas acho o roteiro fraco. Um bom filme, mesmo assim. Já este “Amantes” me intriga demais. Vou procurá-lo.
setembro 23rd, 2009 @6:51 pm
Não gosto tanto do James Gray, que para mim só convenceu em seu filme de estréia, mas ainda assim quero ver esse “Amantes” pelos comentários favoráveis.
setembro 24th, 2009 @10:58 am
Luciano, antes de tudo, parabéns pela nova A Sala. Ficou muito bonito, embora você não tenha seguido a minha sugestão do logo. Brincadeira!
Me parece que James Gray é um diretor extremamente interessante, só não tive a oportunidade de ver algum dos filmes de sua curta filmografia (tenho “Fuga Para Odessa”, um dia eu vejo). Mas o ponto que mais me chama a atenção em “Amantes” é mesmo a presença de Joaquin Phoenix, já que este foi o seu último papel nos cinemas. Acredito que dá para eu aguardar por um excelente desempenho, vendo que ele sempre domina bem personagens com melancólicos e vulneráveis.
Abraço!
setembro 24th, 2009 @3:51 pm
- Vinícius e Wally: A possibilidade de vocês gostarem do filme é boa. É um romance que de certa forma até surpreende e Phoenix está muito bem no filme.
- Alex: Obrigado, meu amigo! =D É bem por aí mesmo. O filme vale muito pelo desempenho do Joaquin Phoenix.
setembro 25th, 2009 @6:08 am
Cara, que filmaço. Um dos melhores do ano facinho pra mim. Lindo filme! Gwyneth Paltrow mandou bem pela primeira vez desde que estreou no cinema.
outubro 1st, 2009 @2:03 pm
Olá!
Te vi no blog “Cinéfila por natureza” e cliquei. Encontrei essa resenha sobre “Amantes”, filme que eu quero muito conferir.
Beijo!
outubro 2nd, 2009 @2:00 am
- Pois é, Pedro! Também gostei. Só não gostei tanto quanto vc da Paltrow, mas a personagem dela ajudou bastante nas partes que achei interessantes da interpretação dela.
- Corre pra ver, Carol! E bem vinda! ^^
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